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sábado, 27 de março de 2021

Hospital Mount Sinai, de NY, diz que desenvolveu vacina anunciada como 100% brasileira pelo Butantan

  SAÚDE


Foto: Dado Ruvic/Reuters

A Butanvac, candidata a vacina anunciada pelo Instituto Butantan como sendo o primeiro imunizante 100% nacional, foi desenvolvida nos Estados Unidos, na Escola de Medicina Icahn do Instituto Mount Sinai, segundo afirmou a instituição à Folha.

A informação, dada à reportagem pelo diretor e professor do departamento de microbiologia do instituto, Peter Palese, também consta em estudo publicado em dezembro de 2020 assinado por presquisadores do Mount Sinai e da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

“Realizamos com sucesso experimentos com nossa vacina baseada no vírus da doença de Newcastle [NVD, um tipo de gripe aviária]. Enquanto isso, iniciamos testes de fase 1 no Vietnã e na Tailândia com a nossa nova geração (melhorada) de vacina de Covid. Estamos conduzindo um teste de fase 1 aqui no Mount Sinai”, escreveu o diretor em email.

“Sim, também temos um acordo com o Instituto Butantan para entrar em testes clínicos no Brasil usando nosso vetor de vacina NVD. Também estamos desenvolvendo vacinas para variantes da Covid-19 baseadas nas versões sul-africana e brasileira para o Instituto Butantan.”

Procurado pela Folha, o diretor do Butantan, Dimas Covas, afirmou que “o Butantan está fazendo o desenvolvimento integral da vacina a partir de parcerias que [o instituto] temos e com um consórcio internacional”. O Mount Sinai, explicou, teria sido procurado pelo Butantan para fornece o vetor da vacina.

Ele disse que há “inúmeras parcerias”, mas que elas só serão anunciadas quando os respectivos acordos estiverem firmados: “Os comunicados conjuntos das parecerias serão feitos no momento oportuno por cada instituição do consórcio”.

Palese e outro diretor de pesquisa do Mount Sinai, Adolfo Garcia Sastre, têm a patente do modelo de vacina a partir do vírus da doença de News Castle no registro europeu de patentes desde 2018.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse na quinta-feira (25) à Folha e nesta sexta-feira (26), a jornalistas que participaram de entrevista coletiva na sede do instituto que a vacina era a primeira vacina feita com tecnologia nacional a entrar com testes em humanos.

Em nenhum momento Doria ou o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, mencionou a parceria com o hospital Mount Sinai.

A vacina é produzida a partir de um vírus que causa a doença de Newcastle, uma gripe aviária, modificado para expressar a proteína S do Spike (ou espícula, o gancho usado pelo coronavírus para infectar e invadir células humanas) do Sars-CoV-2.

Depois de inoculado em ovos embrionados de galinhas, o vírus é inativado, a proteína é purificada e a versão final da vacina utiliza apenas a proteína, sem o vírus, que tampouco infecta humanos.

Além de deter o conhecimento da patente tecnológica, o hospital Mount Sinai, segundo afirmou Palese, foi responsável por conduzir os ensaios pré-clínicos, feitos em animais em laboratório, que antecedem os testes em humanos.

A tecnologia, portanto, é americana, e foi divulgada em duas publicações em revistas científicas em 2020, uma na revista EBioMedicine, em novembro, e outra no periódico Vaccines, em dezembro.

Os ensaios clínicos de fase 1 do novo candidato a imunizante, a primeira a ser testada em humanos, já começaram na Tailândia e no Vietnã com uma versão melhorada da vacina, que é chamada de segunda geração por usar partes do vírus, e não ele todo, para induzir resposta imune. Eles foram conduzidos pelo Mount Sinai, afirmou Palese.

Já no Brasil, o Instituto Butantan anunciou que protocolaria nesta sexta (26) na Anvisa o pedido para começar testes em humanos e que, se autorizado, pode começar esses ensaios em abril. O governo de São Paulo divulgou que fará uma fase combinada 1/2 em humanos com 1.800 participantes,

A vacina tem um trunfo em relação às duas outras produzidas no país —a Coronavac, desenvolvida pela chinesa Sinovac e produzida pelo próprio Butantan, e a Covishield, desenvolvida pela farmacêutica Astrazeneca com a Universidade de Oxford e produzida em parceria com a Fiocruz. Ela terá insumos 100% nacionais, enquantos as demais dependem do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) importado.

A Butanvac também tem possibilidade de rápida produção em larga-escala, uma vez concluídos os testes, pois há a possibilidade de usar ovos embrionados, tecnologia muito mais barata e presente em fábricas de produção de vacina contra a gripe em todo o mundo, como é o caso da fábrica do Butantan.

Segundo Dimas Covas, a vacina se destina aos países de baixa e média renda, e também foram realizados desenvolvimentos do imunizante no Vietnã e na Tailândia, mas cada um deles terá seu próprio fármaco.

FolhaPress

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