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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O que ameaça a universidade?

Quinta, 22 de janeiro de 2026

Nem restrições orçamentárias conjunturais, que podem ser minimizadas e/ou contornadas por gestões competentes e criativas, motivadas, sobretudo, por inovações gerenciais e tecnológicas.

Tampouco a Universidade pode ser debilitada por portarias ministeriais, medidas provisórias ou pressões políticas de ocasião, sempre mais fugazes e volúveis que a amplitude e a supremacia de seu desígnio institucional.

Muito menos intimidada por denúncias infundadas e vazias, perecíveis em seus propósitos e motivações.

Não. Não esses, em absoluto, os fatores minazes à sobrevivência da Academia e à sua consolidação e desenvolvimento como sede do conhecimento.

O que ameaça, de fato, a Universidade, são suas “anomias” intrínsecas. O distanciamento de sua cultura interna das finalidades civilizatórias para as quais existe. O descolamento de sua rotina das funções sociais mais nobres que lhe dão sentido. A perda do ethos acadêmico, definidor de sua própria natureza e historicidade.

Nunca é demais lembrar que Pierre Bourdieu, sociólogo francês e um dos mais importantes intelectuais do século passado, constatou que todo campo da vida social representa, em si, um “espaço simbólico”, um microcosmo dotado de leis próprias, onde se legitimam valores e representações funcionalmente afinados com as finalidades coletivas aí desempenhadas. É o poder simbólico de cada campo interativo que estabelece, internamente (e perante a sociedade), a hierarquia dos próprios signos, daquilo que deve ser valorizado e adequado às práticas sociais a ele afeitas (inclusive as relações de poder), em consonância com suas funções societárias mais específicas. Locais empíricos de socialização, cada “campo” incorpora aos seus integrantes um “habitus” próprio de comportamento individual e coletivo (sentimentos, pensamentos e ações) e um universo de significações (capital cultural), internalizados e legitimados por cada agente conforme o papel peculiar por ele desempenhado nessa coletiva conjunção. Os símbolos afirmam-se, assim, enquanto noção de prática, na qualidade de instrumentos por excelência de integração social, tornando possível a reprodução de uma determinada ordem estabelecida (estrutura) – ou de um estipulado padrão institucional existente.

Assim, numa universidade (“campo” educacional e de pesquisa por excelência), em razão de sua finalidade social específica, os valores e práticas mais significativos – conformadores de um “habitus” indispensável à sua evolução e aprimoramento institucional – se infundem em alguns princípios e preceitos particularmente desejáveis (e indispensáveis) ao meio, traduzidos, dentre outros, no experimento incessante e renovado do conhecimento; no enaltecimento permanente do estudo; na exaltação prioritária do mérito; na valorização da pesquisa de qualidade; na formação teórica e técnica competente de profissionais; no convívio harmônico entre as várias áreas do saber; no pluralismo de ideias; no respeito às diferenças filosóficas, éticas e estéticas; na razão comunicativa e na tolerância e diálogo entre correntes contrárias de pensamento.

É justamente a perda progressiva desse “habitus”, desse conjunto de valores e significações que está condenando, silenciosamente, a universidade brasileira a um perigoso retrocesso, com sinais de obsolescência já em alguns setores e à perda de sintonia e de competitividade acadêmicas relativamente aos progressos científicos (ou afins) no resto do mundo.

É a mentalidade sindical e o espírito corporativo que empobrecem a universidade, tornando-a autista, entrópica, autofágica, incapaz de pensar, formular e enfrentar, com abertura, os verdadeiros desafios do desenvolvimento econômico e social do país, afastando-se dos interesses do conjunto da sociedade.

É a partidarização da instituição, com o seu aparelhamento político, que diminui a sua legitimidade perante a coletividade que a sustenta, com a perda progressiva do respeito social, do reconhecimento funcional e do mérito acadêmico.

É o uso da cátedra como palanque político. É o ensino “faz-de-conta”. É a pantomima em sala de aula (por muitos, inclusive, tratada como “bico”). É a preguiça na busca pelo conhecimento.

É o engodo como conteúdo. É o pacto da mediocridade – pelo qual ninguém ensina e ninguém aprende. É o descaso e a omissão como regra de conduta que afogam a instituição.

Em suma, é a substituição da ciência isenta – o que não significa “neutralidade” – pelas ideologias farsantes (de “direita” ou de “esquerda”) que contamina a mentalidade reinante na descaída academia, condenando, pelo analfabetismo técnico e científico, as futuras gerações à inoperância profissional e à insignificância social.

Aliás, é uma minoria de professores dedicados e de pesquisadores competentes que ainda mantém, por “aparelhos” (para usar uma metáfora provocativa), a respiração da universidade em funcionamento, acomodada que está a maioria do corpo docente em seu esforço de atualização e aprimoramento intelectual – quando não, iludida e desnorteada em suas inglórias batalhas ideológicas –, com seus “direitos” garantidos a priori, independentemente de avaliações rigorosas e qualitativas – que se dissiparam no tempo – ao longo da carreira.

Não, a universidade não é território para acomodados, muito menos para charlatães ou capadócios. Tampouco é destinada a fazer política, ou a tomar partido de qualquer tendência doutrinária de ocasião. Tal opção é um erro monumental, talvez o mais mortífero, uma vez que carregado de consequências deletérias à sobrevivência institucional.

Ao contrário, a função da academia é outra, diametralmente oposta à sua manipulação política, e que só pode ser cumprida, satisfatoriamente, com o resgate dos valores e símbolos que alimentam e garantem o cumprimento de sua funcionalidade social específica.

Por isso as eleições numa universidade, como as de reitor, não podem ser balizadas por princípios artificiais e populistas – a exemplo da reivindicada “igualdade” ou “isonomia” entre as três categorias integrantes do universo acadêmico (docentes, estudantes e técnicoadministrativos) –, num falso e demagógico “democratismo” que desconsidera a natureza e o papel específicos da instituição, pretendendo equipará-la a outras esferas e ordenamentos societários (distintos em suas funções), como se o cargo de reitor, perante a sociedade civil, devesse corresponder ao de um prefeito ou de um governador, eleito, tal-qualmente, por meio propaganda, cartazes e botons e não, exclusivamente, por argumentos e teses de tessitura condizente com os desafios próprios da função.

Não. Não cabe (não deve caber) na Academia a demagogia, o oportunismo, a charlatanice. A cátedra – que não pode ser palanque – tem de ser revestida de um outro tecido discursivo e ético; jamais diminuída pelo ativismo cínico dos arrivistas ou pela mediocridade e enganação dos picaretas de plantão.

Afinal, a universidade não é (não deve ser) partido, sindicato ou local de culto; da mesma forma que suas artérias não podem ser irrigadas por credos fundamentalistas ou mal-intencionados sofismas, sob pena de proliferação metastática dessas irracionais tumorações.

A universidade é (deve ser) tão somente universidade – consoante os traçados da tradição civilizada e em conformidade com suas finalidades específicas, definidas em lei. Simples assim.

Na moldura desse quadro e em consequência, a universidade deve ser responsável e autônoma em suas funções acadêmicas e administrativas (cumpridas com zelo e competência), mas não soberana perante a sociedade que a mantém – a qual é representada, como conjunto, por Governos democraticamente eleitos, portadores, portanto, de legitimidade e autoridade para definir, em cada contexto (desde que com respeito à lei), o que é prioritário e desejável em face do interesse geral e no devido diapasão das prerrogativas constitucionais. Assim ocorre em todo o mundo civilizado onde impera o modelo democrático de poder.

Por certo, a universidade não se confunde com a sociedade. Materializa apenas um “campo” – dentre outros – de sua configuração e ordenamento, com funções próprias e peculiares. Assim, ao fim e ao cabo, cabe-lhe apenas servi-la, com maestria e eficiência, naquilo a que se devota.

Ou não tem sentido – nem serventia.

Não são médicos, engenheiros ou professores “socialistas”, “progressistas” ou “conservadores” o que a universidade deve formar, mas profissionais competentes que salvem vidas, que construam equipamentos de qualidade e que eduquem com proficuidade, oportunizando, aos estudantes, a aquisição de habilidades e competências indispensáveis ao exercício da cidadania no globalizado mundo contemporâneo. Ou é assim, ou a universidade é inútil, tanto para o capitalismo, quanto para o socialismo – ou qualquer outra forma de ficção societária.

Sim, a universidade é uma instituição de ensino e pesquisa; e como tal deve se portar e conformar a sua cultura interna. Definitivamente, o seu desafio não é a conquista do poder político – ou servir de “trincheira” para tal –, mas aquele do conhecimento – do qual depende o futuro da humanidade. É este tipo de “poder” que deve ser democraticamente socializado entre todos e pelo qual devem lutar, diuturnamente, alunos, professores e técnico-administrativos – não por cargos ou vantagens passageiras. Esta é a única “democracia” válida para o ambiente acadêmico. O resto é armadilha – ou emboscada.

Alex Fiúza de Mello. Professor Titular (aposentado) de Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Ciência Política (UFMG) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), com Pós-doutorado em Paris (EHESS) e em Madrid (Cátedra UNESCO/Universidade Politécnica). Reitor da UFPA (2001-2009), membro do Conselho Nacional de Educação (2004-2008) e Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Pará (2011-2018).

Fonte: Jornal da Cidade Online

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