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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Quando as ideologias sobrepõem a humanidade

Terça, 06 de janeiro de 2026




Apesar do volume inédito de informação disponível, cresce a sensação de que compreendemos cada vez menos o mundo em que vivemos. Informação não é conhecimento, e conhecimento não se traduz automaticamente em sabedoria. O excesso de dados, opiniões e slogans tem produzido um fenômeno preocupante: pessoas altamente informadas, mas pouco capazes de analisar fatos, contextualizar acontecimentos e exercer empatia.

Nas redes sociais, esse quadro se agrava. Grupos se organizam em torno de ideologias rígidas, às quais aderem com fervor quase religioso. Cada qual se agarra à sua própria narrativa como se fosse uma tábua de salvação, ignorando que, apesar das divergências, todos estamos sujeitos às mesmas consequências sociais, políticas e humanas. Estamos no mesmo barco — mas muitos insistem em remar em direções opostas, ainda que isso signifique afundá-lo.

O cenário lembra filmes de suspense em que alguns percebem o perigo iminente e tentam alertar os demais. Os sinais são claros, mas a incredulidade prevalece. Quem alerta é ridicularizado, silenciado ou hostilizado. O desfecho costuma ser previsível. Resta a pergunta incômoda: como alertar quem se recusa a ouvir?

O problema não está na divergência de ideias, que é própria das sociedades democráticas, mas na adesão cega. Quando a ideologia deixa de ser uma ferramenta de interpretação da realidade e passa a funcionar como um filtro moral absoluto, ela autoriza a desumanização. Nesse ponto, a humanidade se perde.

O debate internacional em torno da responsabilização do ditador venezuelano Nicolás Maduro reacendeu uma discussão reveladora sobre o uso distorcido do conceito de “soberania”. Invoca-se a soberania para silenciar críticas, mas é preciso perguntar: que soberania é essa? Um país soberano não é aquele que prende e mata opositores, manipula eleições, censura a imprensa e se mantém no poder pela força enquanto seu povo foge em massa para não morrer de fome ou violência. A migração em larga escala não é ideológica — é um pedido desesperado de sobrevivência.

Ainda assim, há quem relativize assassinatos, prisões arbitrárias e miséria em nome de uma suposta democracia. Mas que democracia é essa que mata, cala, persegue e ignora o clamor do próprio povo?

Nesse contexto, palavras como democracia, soberania e atentado ao patrimônio público revelam seu caráter abstrato quando desconectadas da realidade concreta. Usadas sem compromisso ético, passam a servir a uma lógica de dissonância cognitiva: pregam valores que não se praticam. Invocam-se teorias, leis e regras para justificar violências, enquanto vidas humanas são tratadas como secundárias.

Patrimônio pode ser reconstruído. Instituições podem ser reformadas. Sistemas podem ser revistos. Pessoas, não. O tempo de vida é limitado, e nenhuma existência perdida é recuperável. Quando não há morte, restam sequelas físicas, psíquicas e sociais que acompanham indivíduos e famílias por toda a vida.

Quando a ideologia fala mais alto do que a humanidade, a empatia se torna seletiva. Sofrem apenas “os nossos”. Os demais são reduzidos a inimigos, números ou danos colaterais de uma causa supostamente maior. Questionar passa a ser visto como ameaça. Pensar, como traição. A convicção vale mais do que os fatos; a narrativa importa mais do que a realidade.

Esse mecanismo explica por que tantos passam a defender líderes e regimes que atentam contra os próprios direitos humanos. Criam-se figuras idealizadas, blindadas de críticas, verdadeiros “bandidos de estimação”. A submissão se disfarça de lealdade, e o pensamento crítico é substituído por slogans.

O risco não é abstrato. Ele se materializa na naturalização da violência, na relativização da morte e na indiferença diante do sofrimento alheio. E se amplia ainda mais na era tecnológica, em que discursos desumanizados podem ser amplificados e automatizados em escala inédita.

O problema não é o debate político, nem a tecnologia em si. O problema é a renúncia à responsabilidade ética de pensar, questionar e reconhecer o outro como humano — inclusive quando ele discorda de nós.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja escolher a ideologia certa, mas não perder a humanidade em nome de nenhuma delas.

Foto de Bernadete Freire Campos

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.


Fonte: Jornal da Cidade Online

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