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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Reportagem revela bastidores de mulheres que se submetem a mutilação genital para fingir que são virgens antes do casamento

Sexta, 20 de Dezembro de 2019

Foto: AFP

Por medo de sofrer retaliações de seus futuros maridos, mulheres no Sudão escolhem ser submetidas à mutilação genital antes de seus casamentos para fingir que ainda são virgens.

Muitas delas já haviam passado por um processo similar de circuncisão na infância — que costuma ocorrer entre os 4 e os 10 anos de idade.

A mutilação genital feminina, ou na sigla MGF, consiste no corte ou a remoção deliberada da genitália feminina externa.

No país de maioria muçulmana, a prática pode envolver a remoção ou o corte dos lábios e do clitóris, e com frequência inclui também uma sutura para estreitar a abertura vaginal — um processo conhecido como infibulação. Esses pontos se desfazem quando a mulher tem relações sexuais.

A operação costuma ser realizada por parteiras. No Sudão, a sutura na vagina é uma alternativa à himenoplastia, uma cirurgia para reconstruir hímens, a membrana que cobra parcialmente a abertura vaginal, para esconder qualquer sinal passado de atividade sexual.

Mas a himenoplastia deve ser realizada por um cirurgião e sua disponibilidade no Sudão não é ampla.

‘Não pude andar por dias’

“Foi tão doloroso… tive que passar uns dias na casa de uma amiga até me recuperar, porque não queria que minha mãe soubesse”, diz Maha (nome fictício para proteger sua identidade).

“Urinar era um problema e, nos primeiros dias, eu mal conseguia andar.”

Maha passou pela cirurgia dois meses antes de seu casamento com um homem “um pouco mais velho” que ela.

“Ele nunca confiaria em mim se descobrisse que fiz sexo antes do casamento”, afirma.

“Me proibiria de sair de casa e até de usar meu telefone celular.”

Recém-graduada na universidade, ela vem de um Estado no norte do Sudão, em que a mutilação genital feminina é proibida.

Mas a prática ainda é extremamente comum no país — 87% das mulheres sudanesas entre 14 e 49 anos foram submetidas a algum tipo de MGF, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Mesmo trabalhando na capital, Cartum — em que a cirurgia não é proibida —, Maha escolheu fazê-la clandestinamente em sua cidade natal, na casa de uma parteira.

Ela conhece a mulher, que concordou em fazer a operação por um preço mais baixo do que as 5 mil libras sudanesas (R$ 450) cobradas normalmente.

Quatro tipos de mutilação



Tipo 1: Clitoridectomia. É a remoção parcial ou total do clitóris e da pele no entorno.

Tipo 2: Excisão. É a remoção parcial ou total do clitóris e dos pequenos lábios.

Tipo 3: Infibulação. O corte ou reposicionamento dos grandes e dos pequenos lábios. Em geral inclui costura para deixar uma pequena abertura.

Tipo 4: Abarca todos os outros tipos de mutilação, como perfuração, incisão, raspagem e cauterização do clitóris ou da área genital.

‘Faço porque preciso do dinheiro’

Em muitas culturas que valorizam a virgindade antes do casamento, mulheres decidem fazer cirurgias para reconstruir seus hímens.

Mas a himenoplastia tem de ser realizada por um cirurgião. Por isso, a sutura para estreitar a abertura da vagina é a melhor opção para essas mulheres. Algumas parteiras optam ainda por cortar uma parte adicional dos lábios ou outras dobras da vagina durante a operação.

O ginecologista Sawsan Said, que atua para erradicar a prática no Sudão, diz que “qualquer alteração nos genitais femininos são considerados MGF, seja costurar ou perfurar”.

Nenhum desses procedimentos, porém, pode ser realizado em hospitais, mesmo em Cartum, já que são proibidos pelo Conselho Médico sudanês.

Parteiras flagradas realizando a operação são demitidas e têm seus equipamentos confiscados.

Em visita a três hospitais, porém, a reportagem da BBC ouviu ofertas de procedimentos de diversas profissionais.

Uma delas falou sobre a cirurgia abertamente, na frente de outras enfermeiras, e mostrou a sala em que ela poderia ser realizada.

“Você quer que eu corte uma parte do seu clítoris? Se você não quiser que eu toque nele, tudo bem… mas eu vou deixar você perfeita cortando um pouquinho dos seus lábios externos e suturando-os unidos”, ela disse.

Outra parteira afirmou que detestava fazê-las, mas que precisava ganhar dinheiro.

“Recentemente, eu fiz uma infibulação em uma menina de 18 anos que tinha sido estuprada por seu primo. A mãe dela veio e aqui e me pediu chorando [para realizar a cirurgia], e eu decidi ajudá-las”, contou.

“Eu fiz um juramento na Iniciativa Saleema de que não ia mais mutilar garotas e mulheres, mas faço de tempos em tempos porque preciso de dinheiro para criar meus netos, que perderam a mãe.”

Lançado em 2008 para acabar com MGF no Sudão, o programa Saleema é apoiado pela ONU.

Nova era?

Seu principal desafio, porém, é mudar as atitudes em uma sociedade bastante conservadora.

“Eu quero que minha futura esposa seja virgem”, disse à reportagem um homem solteiro em Cartum. Segundo ele, se esse não fosse o caso, haveria sempre a suspeita de que ela estivesse o traindo.

Essa é uma atitude bastante comum no Sudão, onde os homens esperam que as mulheres permaneçam “costuradas”.

Militantes contra a mutilação genital feminina, entretanto, esperam que as coisas mudem. No mês passado, o país rejeitou uma lei de ordem bastante restritiva, que controlava como as mulheres agem e se vestem em público e incluía a proibição do uso de calças por elas.

A legislação foi introduzida durante os quase 30 anos de Omar al-Bashir no poder. Ele foi derrubado da Presidência por um golpe de Estado neste ano, após ondas de protestos nas ruas.

Sob essa lei, as autoridades podiam controlar o que as mulheres vestiam, quem viam ou com quem falavam, e que tipo de emprego poderiam ter — as que desrespeitassem as regras era punidas com o açoitamento ou, em casos raros, apedrejamento e até a execução.

Nahid Toubia, fundadora da iniciativa An Lan — grupo que atua para erradicar a MGF no Sudão — diz que as jovens de hoje estão “muito à frente” de seus pais.

“Elas estão em um momento conflituoso — sentem que têm o direito de ter relações sexuais, mas também precisam ceder ao passar por uma nova sutura vaginal ou usar o hijab [um dos tipos de véus muçulmanos para mulheres.”

G1, com BBC

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