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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Internação por surto psicótico ligado à maconha cresce 30 vezes em Portugal

Sexta, 20 de Dezembro de 2019


por Cláudia Collucci | Folhapress
Foto: Divulgação


Em 15 anos, as internações por surtos psicóticos ou esquizofrenia associadas ao consumo de maconha aumentaram quase 30 vezes em hospitais públicos de Portugal, revela estudo publicado na revista científica International Journal of Methods in Psychiatric Research.

Foram quase 600 pessoas hospitalizadas por ano, a maioria homens (90%), com idade média de 30 anos. Os pesquisadores, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, analisaram 3.233 internações ocorridas entre 2000 e 2015.

No período, as hospitalizações por doenças psicóticas associada ao uso de Cannabis pularam de 20 para 588 hospitalizações -de 0,87% do total em 2000 para 10,60% em 2015. O custo médio de cada episódio foi de EUR 3.500 (R$ 15,8 mil). No Brasil, não há estudo semelhante.

Para os pesquisadores, há duas hipóteses para o aumento: houve mais registros do uso de maconha como diagnóstico secundário (ou seja, ao receber um paciente em surto psicótico, o médico passou a perguntar mais se ele era ou não usuário de maconha) e pode ter havido uma mudança nos padrões de consumo (as pessoas passaram a consumir mais a droga).

Mesmo ilegal para fins recreativos na maior parte do mundo, a Cannabis é uma das drogas recreativas mais comumente usadas e nos últimos anos tem aumentado a sua utilização para fins medicinais. Pelo menos 40 países já a legalizaram para essa finalidade, inclusive o Brasil, que aprovou novas regras no início deste mês.

As substâncias mais conhecidas são o canabidiol (que não dá barato), e o THC (delta 9-tetrahidrocanabinol), que é psicoativo.

Segundo os autores do estudo, outros países, como a França e os Estados Unidos, já relataram que o uso recreativo de Cannabis está ligado a um aumento nas taxas de utilização de serviços hospitalares e de emergência por surtos psicóticos.

Em Portugal, a propriedade e o consumo de Cannabis e outras drogas foram descriminalizados em 2001. Só é considerado crime se a pessoa possuir mais de dez doses da droga.

"Nesses tempos em que muitos países estão considerando a legalização da Cannabis para consumo recreativo, a pesquisa sobre o papel dessa droga na doença psicótica surge como uma ferramenta importante para entender o seu verdadeiro impacto em termos de saúde pública e mental", escreveram os autores.

Embora seja difícil estabelecer um nexo de causalidade direto entre o uso de Cannabis e as doenças psicóticas, um grande número de estudos observacionais encontrou uma forte associação entre as duas ocorrências.

Em março deste ano, um estudo multicêntrico publicado na revista científica The Lancet demonstrou o aumento da prevalência de pessoas que tiveram o primeiro surto psicótico relacionado ao consumo de maconha.

O trabalho envolveu 901 pacientes de 11 instituições na Europa e uma no Brasil (USP) e reforça que o aumento do número de surtos está relacionado a uma concentração de THC superior a 10%.

Em Amsterdã e Londres, o aumento da prevalência de surtos nessas circunstâncias foi de 50% e 30%, respectivamente. Só para efeito comparativo, nos produtos à base de Cannabis para fins medicinais aprovados no Brasil, a concentração de THC começa a partir de 0,2%.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular da Unifesp e diretor da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, o estudo português e os outros artigos recentes reforçam a ideia de que o uso de maconha piora todos os indicadores de saúde mental de jovens.

Ele cita, por exemplo, uma metanálise publicada no Jama (jornal da Associação Médica Americana) em fevereiro deste ano, com 11 estudos que incluíram 23.337 adolescentes usuários de maconha. O trabalho concluiu que houve aumento de depressão na vida adulta (37%), pensamentos suicidas (50%) e um risco de tentativa de suicídio três vezes maior em relação aos jovens não usuários da droga.

"Dizem que as políticas de saúde levam em média 17 anos para mudar mesmo quando existem evidências. Foi o que aconteceu com o cigarro e vai acontecer com a maconha."

Já o professor da Unicamp Luís Fernando Tófoli, pesquisador sobre políticas de drogas, aponta limitações no estudo português, como o fato de que a coleta de dados não foi desenhada para dar conta da pergunta de pesquisa (aumentou a incidência de uso de maconha entre os psicóticos internados?) e sim para atender a fins administrativos. Ainda assim, segundo ele, não invalidam os achados.

"Dados retirados de prontuários ou bancos de dados são afamados por serem extremamente problemáticos. Ainda assim, o tamanho da mudança [mais de 30 vezes] chama a atenção, e é pouco provável que isso tenha acontecido por puro acaso."

Segundo Tófoli, existe uma correlação bem explícita entre o aumento da popularidade do tema (medida pelo número de artigos publicados) e o número relativo de consumidores de maconha identificados entre os psicóticos.

"Claro que não é possível afirmar cabalmente que o aumento de diagnósticos se deu por conta de uma 'moda' em perceber a relação."

Na opinião do pesquisador, levando em consideração que os estudos epidemiológicos não encontraram maiores taxas de esquizofrenia em populações que consomem mais maconha, é possível que os psiquiatras portugueses começaram a se dar conta da importância de se perguntar sobre consumo de maconha para pessoas com diagnóstico de psicose.

"Estar atento para essa correlação é importante, embora ainda não esteja clara ainda qual é a relação causal entre o uso de maconha e o diagnóstico de psicose."

Segundo ele, pode ser tentador, para quem defende políticas proibicionistas, relacionar a flexibilização da lei de porte de drogas em Portugal com o aumento no percentual de psicóticos hospitalizados com relato de consumo de maconha.

"Isso é ainda menos provável, uma vez que para tal seria fundamental examinar um bom número de anos antes do início da descriminalização e não apenas a partir dela. A melhor evidência disponível sobre a descriminalização das drogas não parece apontar qualquer relação com aumento ou diminuição do consumo."

No entanto, Tófoli afirma que o artigo português acende um alerta e indica que é preciso fazer outros estudos comparativos em outros países. "Da forma como está, ele não permite afirmar (e nem negar) que mudanças no uso adulto da maconha tenham causado esses efeitos", diz ele.

A prevalência estimada de uso de maconha pela população portuguesa é mais baixa quando comparada à média europeia (7,4% contra 9,7%), mas no que se refere ao consumo moderado e alto, estima-se que em Portugal seja maior (cerca de 3% contra 1%).

Os autores dizem que a doença psicótica relacionada ao uso de Cannabis pode ocorrer em três situações distintas: autolimitada, ou seja, termina após a interrupção do consumo; a que requer tratamento médico ou hospitalização mesmo após a interrupção do consumo e aquela em que o surto se manifesta anos após o uso de maconha, mas que provavelmente está relacionado a ele.

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