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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Consumo de insetos é tendência e você já pode estar participando sem saber

Quinta, 19 de Dezembro de 2019



Mais expostos ou disfarçados em pratos, os insetos devem se tornar, cada vez mais, uma parte da alimentação das pessoas Foto: Rossano Linassi / Divulgação

Quem nunca sentiu medo ou nojo ao ver um inseto? Da barata à borboleta, esse grupo de animais não faz parte da alimentação de boa parte da população do Brasil. Mas o que está por trás dessa aversão? E, afinal, quais são as vantagens de se consumir insetos, na chamada entomofagia?

Primeiramente, é importante destacar que os insetos que vemos no nosso cotidiano não devem ser iguais aos que consumimos. O chef Rossano Linassi explica que, quando produzidos para consumo, os insetos são criados em cativeiro, em condições especiais.

“O maior cuidado é impedir que [os insetos] saiam e outros entrem, com barreiras físicas”, explica Linassi. Esse bloqueio é essencial, pois impede que insetos do ambiente externo, possivelmente com doenças, contaminem os do ambiente especial.

Além disso, os insetos recebem como alimentação trigo, aveia, frutas e legumes. Os ambientes de criação também têm controle de temperatura e umidade. Segundo Linassi, a criação é tranquila, mas ainda não é barata. “As criações são pequenas e direcionadas para produção de ração. A produção pequena impacta no preço do quilo [de inseto], tornando-o mais caro. Isso ocorre por ter poucos produtores grandes e uma produção mais manual”, destaca o chef.

Atualmente não há nenhuma lei que proíba o consumo de insetos por humanos no Brasil, mas também não há uma legislação específica sobre o assunto. No geral, a maior parte dos criadores volta-se para a produção de ração, devido à baixa demanda por parte de consumidores humanos.

Casé Oliveira, chef de cozinha e presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Insetos (Asbraci), explica que, como qualquer outro alimento, os insetos ficam sujeitos a leis de padrão de qualidade e boas práticas de manipulação. Quando usados em restaurantes e outros estabelecimentos comerciais, a fiscalização da qualidade dos insetos fica a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Já quando os insetos são usados como componentes de alimentos industrializados, prática mais comum do que imaginamos, o produto, e toda sua composição, é enviado à Anvisa e analisado. “Essa comprovação é uma obrigação do fabricante que deve apresentar à Anvisa um dossiê técnico-científico com as informações necessárias para a avaliação, incluindo dados de avaliação toxicológica e potencial alergênico”, explica a Anvisa em nota enviada para o E+.

“Hoje comemos [insetos] de forma involuntária, não sabemos que está na composição”, explica Casé Oliveira, se referindo aos alimentos industrializados. Dentre os alimentos que podem possuir insetos na composição, Oliveira destaca: “Todos os produtos industrializados com corantes orgânicos de cor rosa, vinho ou púrpura, têm o corante carmim, feito de inseto. Em suco de caixinha é muito usado. [Insetos] Já estão no nosso dia a dia, como na maquiagem por exemplo”.

Na opinião do chef, um ponto importante é sempre olhar os rótulos dos produtos que estamos comprando, entretanto não é incomum que empresas tentem mascarar a presença de insetos, substituindo o nome dos animais pela classificação técnica dos componentes.

Os benefícios de incluir insetos na alimentação

Para o chef Rossano Linassi o principal benefício que a alimentação com insetos traz é a grande quantidade de proteínas no alimento. “Em geral, em cem gramas de alimento, a carne bovina tem em torno 23% de proteína, a de frango tem 30, 40%, já os insetos têm em média 50, 60% de proteínas, mesmo considerando variações das espécies e fase de desenvolvimento”, comenta. Além disso, eles possuem grandes quantidades de vitaminas, minerais e gorduras boas. A proteína dos insetos também tem maior facilidade de absorção pelo corpo, podendo ser melhor aproveitada.

Outro ponto importante está ligado à questão ambiental. Os insetos demandam menos recursos, como a água, e têm uma contribuição para o aquecimento global, com liberação de algum gás de efeito estufa, muito menor que a de outros animais, como o gado bovino. “Hoje a grande maioria dos grãos produzidos são usados para alimentar animais, mas poderiam ser reaproveitados. O inseto é eficiente na conversão de biomassa, produz muito com pouco”, destaca Casé Oliveira.

O chef também destaca as altas quantidades de ferro, cálcio e ômega 3 presentes na maioria das espécies de insetos, capazes de substituir fontes importantes desses nutrientes, como o espinafre ou o salmão.

No geral, os riscos de consumir insetos estão ligados aos riscos de se consumir qualquer alimento mal preparado ou contaminado. “Como qualquer animal, o inseto tem que ser criado para a alimentação, evitando contaminação e em um ambiente apropriado”, comenta Casé. Além disso, apesar da proximidade evolutiva com os crustáceos, os insetos podem ser consumidos por alérgicos a camarão, pois possuem proteína semelhante a de bovinos e que não desperta a reação alérgica.

Outro fator que Rossano Linassi aponta é que, com um aumento da demanda humana, o preço do quilo de inseto teria uma grande diminuição. Essa tendência foi observada em países que incentivaram o aumento de consumo de insetos ou de produtos que possuem insetos, como na Europa, tornando o alimento mais acessível.

Mas, afinal, por que não comemos insetos?

Tanto Linassi quanto Oliveira concordam que o principal fator que impede um aumento de consumo de insetos no Brasil é a questão cultural. “Temos uma visão negativa dos insetos. Associamos eles ao exótico e o exótico à ameaça”, opina Casé. Como associamos os insetos ao lixo, sujeira ou naturalmente temos aversão às suas patinhas ou olhos, acabamos evitando consumi-los.

Mas essa não é uma realidade global. Países do leste asiático, como a China e o Vietnã, possuem uma alta taxa de consumo de insetos, bastante integrados à culinária local. O cenário de baixo consumo também não serve para todos os países ocidentais.

O México possui um grande histórico de consumo de insetos, em especial grilos, que são consumidos no dia a dia da população. A Europa tem incentivado o aumento do consumo de insetos, com a União Europeia investindo na liberação e produção de leis sobre o tema. Hoje, os insetos fazem parte da alimentação de, aproximadamente, dois bilhões de pessoas.

Outro ponto que Casé destaca é que, historicamente, o consumo de insetos já foi uma tradição no Brasil, em especial no período anterior à colonização brasileira, quando as populações indígenas tinham um consumo grande desses animais. Até hoje algumas regiões do Brasil mantêm o hábito de consumir algumas receitas que levam insetos.

“No Brasil, a tanajura [tipo de formiga] é bastante consumida, em especial no Norte e Nordeste. No Sudeste, a região do Vale do Paraíba tem ofertas de pratos com insetos em restaurantes. Uma cidade no Ceará teve até um festival para a tanajura. Na Amazônia, tem grande consumo de cupim e formiga, por populações nativas e ribeirinhas”, comenta.

Um elemento chave para superar essa aversão, o que Rossano Linassi chama de “associação com a barata que vemos em casa”, pode estar na produção de alimentos feitos a partir de insetos, sem que eles estejam lá de forma visual. Os insetos podem ser triturados e usados como farinha em pães, biscoitos e outras massas, por exemplo.

“Isso descaracteriza o inseto. Estimula o consumidor. Quando os insetos estão disfarçados ou não aparecem tanto, as pessoas comem mais”, ressalta Linassi. Casé Oliveira vai na mesma linha: “O ideal é mostrar à população os benefícios do consumo e trabalhar os insetos como componente e não como ingrediente. Preferimos uma mentira agradável a uma verdade inconveniente”.

Para Casé, o aumento de consumo de insetos deve se tornar uma tendência global e algo inevitável. “Hoje há a linha de sobrevivência da humanidade com uma escassez de recursos naturais. Temos que reconsiderar nosso cardápio, até por isso. Sem mudar o cardápio, corremos o risco de comprometer o futuro da raça humana”, comenta.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) elencou os insetos como auxiliares no combate à fome, sendo importantes para a chamada segurança alimentar dos países no mundo.

O chef opina que é importante que o consumo de insetos seja integrado a nossa cultura, mas isso deve ocorrer aos poucos, e o uso de insetos como farinha, por exemplo, é um bom caminho inicial. E Rossano Linassi vai na mesma linha:

“O interesse por insetos tem sido crescente, as pessoas andam com mais abertura e menos preconceitos, novos espaços têm sido abertos. O tema progrediu muito, mas tem um longo caminho pela frente. É uma cultura que a gente não tem, mas precisa mudar a forma como as pessoas veem o inseto, de negativo para positivo”, afirma.

Emais – Estadão

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