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quinta-feira, 15 de julho de 2021

Insensatez infinita: O que leva um homem a torcer contra o próprio país?

Quinta, 15 de Julho de 2021

“Fora as esquerdas, que acham o futebol o ópio do povo, fora as esquerdas, dizia eu, todos os outros brasileiros se juntam em torno da seleção. É, então, um pretexto, uma razão de autoestima”. (Nelson Rodrigues).

O que leva um homem a torcer contra o próprio país, contra a nação onde nasceu, onde vive, se alimenta, onde encontra abrigo?

Pois foi o que fez Jean Wyllys. Não só ele, mas o jornal Folha de S.Paulo, estimulou e mostrou leitores torcendo contra a nação e a favor da Argentina. Pobres diabos!

Sim, eu sei, é apenas um esporte. Uma competição. Mas não uma competição qualquer. Não. É uma competição entre nações. Nessa competição, nesse esporte, se envolvem valores como, pátria, o que somos, o que representamos, como evoluímos, como nos desenvolvemos, como nos educamos...

Reconhecer que a seleção jogou mal é algo normal. Torcer contra ela é outra coisa totalmente diferente. Palpitar que poderemos perder o jogo é natural; torcer contra o time que representa o país onde se nasceu é perversidade.

Em sua infinita insensatez esses maus brasileiros não compreendem que esporte é superação; é ir além de suas próprias forças; é retirar do espaço forças ocultas; é se conectar com o atleta e repassar a ele energias positivas. Assim é feita a vitória e se a vitória não vier sobrará aos atletas e torcedores a dignidade de que lutaram, cada um a seu modo, que não foram covardes, de reconhecer que o adversário era superior. Nunca a asneira de torcer contra sí mesmo.

Ofereço a Jean Wyllys, que tentou apequenar a pátria onde nasceu e a seleção, “Coices e relinchos triunfais”, parte de uma crônica de Nelson Rodrigues:

“Amigos, o meu personagem da semana é o cronista patrício que foi a Inglaterra. Pois bem: — saiu daqui bípede e voltou quadrúpede. Desembarcou no Galeão soltando, em todas as direções, os seus coices triunfais. Por aí se vê que o subdesenvolvido não pode viajar, e repito: — não pode nem ultrapassar o Méier. A partir de Vigário Geral, baixa, em nós, uma súbita e incontrolável burrice.
Não há, nas palavras acima, nenhuma piada. Faço uma casta e singela constatação. Ponham um inglês na Lua. E na árida paisagem lunar, ele continuará mais inglês do que nunca. Sua primeira providência será anexar a própria Lua ao Império Britânico. Mas o subdesenvolvido faz um imperialismo às avessas. Vai ao estrangeiro e, em vez de conquistá-lo, ele se entrega e se declara colônia”.

Para a Folha e seus jornalistas canhotas e para os que nasceram no Brasil, vivem no Brasil, ganham dinheiro no Brasil e torcem contra o Brasil, ofereço esta outra crônica do grande Nelson, “O “entendido”, salvo pelo ridículo”:

Por que o Brasil não gosta do Brasil e por que nos falta um mínimo de autoestima? É a pergunta que me faço, sem lhe achar a resposta. Dirão vocês que exagero e que não é tanto assim, que diabo. Responderei que é tanto assim ou pior. Vocês se lembram da Passeata dos Cem Mil, a famosíssima Passeata dos Cem Mil?

Os meus leitores, se é que os tenho, já repararam que eu a cito muito. Posso dizer que é uma das minhas referências mais obsessivas. E por quê? Quem quiser entender as nossas elites e o seu fracasso encontrará nos Cem Mil um dado essencial. Não havia, ali, um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo, e nem barnabé, e nem pé-rapado, nem cabeça de bagre. Eram os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites.

E sabem por que e para que se reunia tanta gente? Para não falar no Brasil, em hipótese nenhuma. O Brasil foi o nome e foi o assunto riscado. Falou-se em China, falou-se em Rússia, ou em Cuba, ou no Vietnã. Mas não houve uma palavra, nem por acaso, nem por distração, sobre o Brasil. Picharam o nosso Municipal com um nome único: — Cuba. Do Brasil, nada? Nada.

As elites passavam gritando: — “Vietnã, Vietnã, Vietnã!” E, quanto ao Brasil, os Cem Mil faziam um silêncio ensurdecedor. Tanto vociferaram o nome de Vietnã, de Cuba e China que minha vontade foi replicar-lhes: — “Rua do Ouvidor, rua do Ouvidor, rua do Ouvidor!” Simplesmente, o Brasil não existe para as nossas elites. Foi essa a única verdade que trouxe, em seu ventre, a Passeata dos Cem Mil”.

Pois é, ainda hoje o Brasil não existe para as nossas elites.

Para os que não sabem ou não se lembram, a Passeata dos Cem Mil foi a manifestação realizada no Rio de Janeiro em 26 de junho de 1968, organizada pelos Comunistas e Socialistas, infiltrados dentro Movimento Estudantil — na época o principal núcleo de oposição ao regime militar instaurado no país em março de 1964.

Finalizo dizendo que o Brasil é a seleção que mais ganhou Copas do Mundo de futebol. Foram cinco conquistas: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Nenhum país do mundo conheceu essa glória. Então porque abutres e hienas nos jogam pedras? Por que não ressaltam nossos feitos? Todas as seleções alternam períodos de excelência e baixa excelência. Isso é normal. Eis o mesmo Nelson, falando da importância da seleção para nosso povo:

“Amigos, eu ando falando muito do Brasil. E muita gente já rosna, com tédio e irritação: — “Você está descobrindo o Brasil?” É exato. Estou, sim, estou descobrindo o Brasil.

Eis que, de repente, cada um de nós ...passa a ser um Pedro Álvares Cabral. Já descobrimos o Brasil e não todo o Brasil. Ainda há muito Brasil para descobrir. Não há de ser num relance, num vago e distraído olhar, que vamos sentir todo o Brasil. Este país é uma descoberta contínua e deslumbrante. E justiça se faça ao escrete: — é ele que está promovendo, quem está anunciando o Brasil.

A princípio, o sujeito pode pensar que o escrete revelou o Brasil para o mundo. Isso também. Todavia, o mais importante e o mais patético é a descoberta do Brasil para os próprios brasileiros. Pergunto: — o que sabemos nós do Brasil? Pouco ou, mesmo, nada. A partir de 58, o Brasil começou a aparecer aos nossos olhos. Digo mais: — foi o escrete que ensinou o brasileiro a conhecer-se a si mesmo. Tínhamos uma informação falsa a nosso respeito”.

É isso, repito Nelson: Tínhamos uma informação falsa a nosso respeito!

Nelson Falcão Rodrigues, nasceu em Recife - (23/08/1912) e morreu no Rio de Janeiro - (21/12/1980). Escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista, cronista de costumes e genial cronista do futebol brasileiro. É considerado o maior dramaturgo do Brasil.

Obrigado, Nelson!

Fonte: Jornal da Cidade Online

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