Segunda-feira, 28 de setembro, noite, comício em Belém, às vésperas do Círio de Nazaré. Falando de exame de próstata, o presidente da República disse que “homem não gosta de tomar toque” e que “mulher aprende a tomar toque desde pequena”. Jakelyne Loiola registrou as duas frases com o contexto na terça-feira, 29 de setembro, e o contexto não salva nada. Leia de novo, devagar, com uma menina de dez anos em casa. Foi o que o Brasil fez naquela manhã.
A reação começou na madrugada de terça (29/9). Fernando Holiday, 1h48: “Que mulher o presidente conhece e que foi tocada na infância? Quem tocou? Ele denunciou? Ele acha isso normal? Ele tocou em alguma?” Carlos Bolsonaro: “Deixem nossas crianças em paz, canalhas!” Gustavo Gayer e Júlia Zanatta repetiram o mesmo pedido: Lula, não toque nas crianças. Marcel van Hattem chamou a fala de “uma banalização do abuso infantil” e, com Sanderson, representou contra o presidente; na quarta-feira, 30 de setembro, a representação foi parar no SBT.

A resposta mais dura veio de quem tem menina em casa. Flávio Bolsonaro, na terça (29/9), em vídeo: “Lula, eu tenho duas filhas mulheres pequenas, uma de 14 e uma de 12 anos, e elas não estão acostumadas a tomar toque desde criança, não.” Alfredo Gaspar ofereceu duas hipóteses: “Sua fala é criminosa e merece repulsa firme da sociedade ou ele está completamente gaga.” Damares Alves lembrou a geografia: “E foi em Belém, bem perto do Marajó, onde tantas meninas sofrem com esses ‘toques’ que ele agora normaliza.” À tarde, ela foi mais fundo: “Eu fui uma menina vítima de abuso. Conheço essa dor. E, justamente por isso, cobro responsabilidade de quem ocupa o cargo mais alto do país.”
Os números não deixam a frase virar piada. Alexandre Ramagem, na terça (29/9): “O Brasil registra cerca de 184 casos de estupro de vulnerável por dia entre menores de 14 anos.” Júlia Zanatta lembrou os mais de 84 mil estupros registrados só em 2025. Damares contou outra história: o Congresso aprovou há quase dois anos o Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais, o governo vetou o trecho que obrigava a permanência do nome do criminoso no cadastro, e a ferramenta até hoje não saiu do papel. É o mesmo governo cujo chefe, no palanque, acha que menina se acostuma.
Faça o teste com a cobertura. André Fernandes, na terça (29/9): “Você percebe o tamanho da besteira que o Lula falou quando vê a mídia modificando por conta própria o que ele disse pra não pegar tão mal.” Filipe Barros juntou as duas censuras da semana: “Ao mesmo tempo que Lula quer poder atribuir a Flávio o que este não disse, também quer impedir você de mostrar o que ele próprio disse.” Jorge Seif Junior fechou o raciocínio: “O presidente que se diz defensor das mulheres, ao vivo, normalizando assédio como se fosse coisa corriqueira. Não é piada. É o que ele pensa.”
Houve mais. Na quarta (30/9), Lula disse ter pena de quem tem diploma e vota em Bolsonaro, como anotou Jorge Seif Junior na quinta-feira, 1º de outubro: “Economista, cientista, universitário com diploma na mão votando no campo conservador é, para ele, sinal de que a pessoa não aprendeu nada.” Chris Tonietto fez a conta inversa: “quanto mais uma pessoa estuda, menos vota no PT”. E, na terça (29/9), tinha feito a pergunta que todo mundo queria fazer: “Será que as feministas ainda vão continuar passando pano depois dessa?”
Rogério Marinho, na terça (29/9): “Tocar uma criança é CRIME e normalizar isso é abjeto!” Alfredo Gaspar lembrou na quinta (1º/10) que, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os feminicídios bateram recorde no ano passado, e Damares cobrou na quarta (30/9) o orçamento de proteção à mulher que o governo, segundo ela, executou em apenas 0,1%. No sábado, 3 de outubro, Flávio fechou a campanha com o tema: “Faz o 22 para proteger nossas crianças!” A dona de casa que ouviu as duas frases da segunda (28/9) não precisou de intérprete.
Essa é uma matéria da Revista A Verdade! Acesse a última edição no link: https://assinante.jornaldacidadeonline.com.br/revistas/averdade/303